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MCR
[27.04.2008
11:05]
Decidi
escrever esta reflexão depois de escutar um comentário
público divulgado por um meio massivo da Revolução, que não
vou mencionar concretamente
Deve-se ter muito cuidado com
tudo o que se afirma, para não fazer o jogo da ideologia
inimiga. Não se pode acusar o período especial do sistema
que o imperialismo tem imposto ao mundo; não inventou a
mudança climática, a civilização que depende do consumo dos
hidrocarbonetos, o transporte de cada membro da família em
automóveis que viajam quase vazios, nem a nefasta ideia de
converter os alimentos em combustível; não inventou as
guerras mundiais pela partilha do planeta, as bases
militares, as armas nucleares e radioelectrónicas, os
satélites espaciais que tudo o espiam e dirigem ao alvo
raios letais, os mísseis teledirigidos, os submarinos que
disparam desde mil metros de profundidade, a ciência e a
tecnologia ao serviço da morte e da destruição.
Também não inventou a
geografia política e as terras de que dispõe cada nação, que
foram fruto de outros factores históricos.
Medite-se bem o que se diz, o
que se afirma, para não fazer concessões vergonhosas.
Analise-se a natureza e a psicologia dos seres humanos; o
seu tempo para actuar é muito breve e constitui realmente
uma fracção de segundo na história da espécie. Compreender
isto é um grande remédio contra vaidades.
O período especial foi
consequência inevitável do desaparecimento da URSS, que
perdeu a batalha ideológica e nos conduziu a uma etapa de
resistência heróica da qual ainda não saímos completamente.
Quão difícil é ser breve na
batalha de ideias
NOSSO ESPÍRITO DE
SACRIFÍCIO E A CHANTAGEM DO IMPÉRIO
A primeira informação que vi
chegou através da agência de notícias italiana ANSA a 22 de
abril.
“La Paz, 22 de abril.- Uma Comissão de Deputados investigará
o caso de uma bolseira Boliviana morta em Cuba, cujo cadáver
foi repatriado sem vários de seus órgãos vitais, dentre os
quais o cérebro.”
O Presidente da Comissão de
Política Social da Câmara, Guillermo Mendoza, anunciou que
pedirá à Chancelaria todos os antecedentes do caso, segundo
a agência católica de notícias Fides.
“Os parentes de Beatriz Porco
Calle, que estudava em Cuba como bolseira, denunciaram que o
cadáver foi entregado por funcionários da Embaixada cubana
sem olhos, língua, dentes nem seus outros órgãos vitais,
entre eles o cérebro, sem explicação alguma.
“O deputado Mendoza disse que
seria feita ‘uma exaustiva revisão’ da legislação cubana
sobre transplantes de órgãos e os compromissos que assinam
os bolseiros bolivianos quando viajam a Cuba.”
A agência espanhola EFE
comunica uma notícia parecida, mas acrescenta: “…a família
da jovem reclamou uma indemnização na Embaixada de Cuba na
Bolívia, e ao ser denegada, ‘ameaçaram com ir à imprensa’,
sublinhou.
“Acho que os familiares se
excederam pedindo ‘indemnização’, opinou o Chanceler (da
Bolívia), quem afirmou que o governo tem realizado um
‘trabalho humanitário’ neste caso,” concluiu a informação.
Para qualquer observador das
realidades, não era preciso muito mais. Tudo se podia
deduzir a respeito do acontecido.
Apesar disso, indago sobre os
trâmites formais, solicito pormenores e precisão para
responder este suposto e desumano despojo de um cadáver.
Solicito adicionalmente relatórios precisos, em cifras
exatas, sobre nossa cooperação médica com a Bolívia, um país
da nossa América que o império quer desintegrar.
Desde a eleição de Evo
Morales, de pura gema indígena, na sofrida Bolívia,
oferecemos-lhe apoio em saúde pública e educação. Lembro-me
muito bem daquela tarde. Tínhamos a certeza de que podíamos
salvar cada ano muitos milhares de vidas e reintegrar a
saúde visual e outras formas plenas de saúde a um número
incalculável de pessoas sem custo algum para essa nação.
Logo seria aplicado um intenso e provado programa de
alfabetização integral em várias línguas, uma delas, a mais
falada: o espanhol.
Na Bolívia trabalham 119
educadores cubanos com o objetivo de transmitirem sua
experiência e conhecimentos para a declarar em apenas dois
anos e meio Território Livre de Analfabetismo. Nosso país
contribuiu desde o primeiro instante com os equipamentos e o
material didático necessário para esse desafio: 30 mil
televisores de 21 polegadas importados da China; um número
igual de videocassetes com 16 459 transformadores e 2 000
sistemas fotovoltaicos, os quais constituem toda uma rede
para os cursos subseqüentes de educação ao longo do dia; um
milhão 359 mil cartilhas para alfabetizar em espanhol,
quíchua e aimara; folhetos de leitura e outros materiais que
omito para não fazer interminável a lista. Uma parte dos
painéis solares de nossa reserva para tempos de guerra foi
enviada para a Bolívia. O transporte igualmente gratuito
desses materiais foi garantido oficialmente por Cuba a Evo
durante uma visita ao nosso país poucas semanas depois do
triunfo.
Por sua parte a Venezuela,
que acabava de ser declarado Território Livre de
Analfabetismo com o método “Eu posso, sim”, incorporou-se ao
programa.
Foram criados na Bolívia 23
727 pontos de alfabetização. Ficou incorporado 76,6 por
cento dos iletrados e já foi alfabetizado 62 por cento dos
que não aprenderam nas escolas primárias a ler e escrever,
sem que se lhes cobrasse um centavo.
Contudo, foi no campo da
saúde em que se realizou o maior esforço de cooperação com
esse povo, ali onde morreram o Che e outros companheiros
cubanos e latino-americanos e uma jovem internacionalista
alemã. Nesse terreno nenhum país pode concorrer hoje, e
talvez durante bastante tempo, com Cuba. É uma forma de
colaboração gratuita com os mais pobres, e ao mesmo tempo
fonte de exportação de serviços a outros países do mundo que
dispõem de muitos mais recursos. Na América Latina
especialmente, e no Caribe, temos brindado cooperação
gratuita neste domínio aos mais necessitados.
Trabalham arduamente na
Bolívia 1 852 compatriotas; deles, 1 226 médicos, 250
enfermeiras especializadas, 119 técnicos da saúde, 9
estomatologistas, 86 profissionais e técnicos de outros
setores; 102 pessoas selecionadas, consagradas a serviços
vitais de diversa índole que necessitam, no exterior, das
brigadas cubanas, para além dos pacientes internados.
A Brigada Médica Cubana
labora em 215 municípios dos 9 departamentos da Bolívia,
atendendo a pessoas modestas e a quem solicitem seus
serviços. Dispõem de equipamento ótimo doado por nosso país.
Em 18 posições oftalmológicas cirúrgicas foram operados da
vista 186 508 pacientes. Sua capacidade ultrapassa
amplamente os 130 mil por ano.
Nossos médicos já quase
fizeram 12 milhões de consultas desde que os primeiros
chegaram à Bolívia. Só na base de cálculos se pode estimar o
número de vidas salvadas, visto que como norma seus
pacientes não recebiam atendimento algum.
Talvez o mais impactante
aspecto de nossa cooperação médica radica na formação de 5
291 jovens bolivianos que estudam medicina em Cuba, entre
eles 621 na Escola Latino-americana de Medicina, na qual já
se fizeram três graduações com excelentes resultados, e 4
670 do novo programa. Não exagero se afirmo que entre os
mais firmes e combativos amigos de Cuba na América Latina, e
é claro que na Bolívia, estão os familiares cujos filhos
estudam essa especialidade em nossa pátria.
A jovem estudante Beatriz
Porco Calle, de 22 anos de idade, à qual se refere o telex,
portava passaporte número 5968246; procedia do departamento
de Oruro, província de Samara, município de Curahuara de
Carangas, comunidade rural de Toypicollana, de procedência
indígena e religião cristã adventista. Cursava
satisfatoriamente o segundo ano da carreira de Medicina, na
Faculdade “Miguel Sandarán Corzo”, de Matanzas.
Perde bruscamente a
consciência em 6 de março no banheiro de seu dormitório.
Médicos e professores decidem levá-la de imediato para o
Hospital Provincial. No exame físico não surgem elementos
que permitam explicar as causas, também não nas análises de
laboratório e noutros meios, incluída a tomografia axial
computadorizada. Recupera-se bem e é dada de alta.
Cefaléias e enjôos se
apresentam breve tempo depois. Novas pesquisas médicas.
Sente-se estressada. São aplicados os medicamentos adequados
para tais situações. A 23 de março, pelas 19h30, novas
perdas de consciência. Vai de novo para o sistema de
urgência acompanhada por um professor; cuidados intensivos,
onde se diagnostica o que se conhece, antes de falecer, como
morte cerebral.
Notifica-se ao Ministério do
Exterior e ao Embaixador da Bolívia, os quais preparam a
documentação para viajar em caso de falecimento, o que
acontece quase uma semana depois, no dia 28.
É remetida ao Instituto
Nacional de Medicina Legal, que está obrigado a realizar a
necropsia para conhecer das causas da morte. São cumpridos
com rigor os trâmites pertinentes. O namorado da estudante e
outros companheiros dela recolheram os pertences e selaram
as bagagens. Na Faculdade, foi oficiada uma missa em 31 de
março. Diagnóstico textual do Instituto: “morte por
hipertensão endocraniana, doença cérebro-vascular
hemorrágica por malformação vascular meníngea cerebelosa
congênita”. Era inevitável nesse caso a extração do bloco
visceral e tomada de amostras pertinentes.
Uma professora da Faculdade
acompanhou o cadáver à Bolívia até entregá-lo aos
familiares. A Missão Médica cubana assumiu as despesas da
deslocação até seu lugar de origem e funerais.
É duro escrever sobre isto.
Mais duro ainda é ler os telexes que transmitem pelo mundo a
idéia de um cadáver despojado de seus órgãos, que obrigam a
Cuba a oferecer estas explicações.
Fica bem claro o acontecido.
O império precisa contra-arrestar verdades de Cuba que não
suporta. Intriga e encoraja familiares para reclamarem
indemnização; encomenda a tarefa, como se constata num dos
telexes, e lançam pelo mundo a repugnante mentira através de
um parlamentar e da agência Fides de notícias. Daí, para a
maquinaria demolidora da sua mídia e técnicas mediáticas.
No nosso próprio país ―não
hesito em afirmá-lo― tem pessoas insensíveis, de escassos
conhecimentos sobre realidades, que com respostas rápidas e
impensadas afirmarão: “não devemos ajudar à Bolívia”. Jamais
compreenderão que, tanto na política quanto na revolução, a
alternativa de uma estratégia errada ou equivocada é a
derrota.
por Agence Cubaine de Nouvelles* |