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Marco
Antonio Villela dos Santos
A crise
do imperialismo expressa o agravamento de todas as suas
contradições, principalmente da contradição entre a
burguesia e o proletariado, da luta de classes,
manifesta/expressa na dificuldade da retomada da taxa média
de lucro, implicando/desdobrando-se no agravamento da
contradição do imperialismo com os povos dos países
dominados e, cada vez mais, da contradição
interimperialista.
Estamos
vivendo nos primórdios da barbárie capitalista, de um mundo
que não se parece em nada com a sociedade sem classes, o
"reino da liberdade", apontada por Marx e Engels e que a
classe operária iniciou a construir, na luta de classes,
iluminada pelo marxismo-leninismo, construindo o socialismo,
lutando pelo comunismo.
Vimos
afirmando que o imperialismo [1] vem vivendo uma longa
crise, crise de sobreacumulação de capitais e superprodução
de mercadorias que, diferente das outras vezes, vem se
estendendo continuamente - com períodos cada vez mais curtos
de recuperação e mais longos de recessão - a partir da
grande crise que atingiu toda a economia mundial capitalista
nos inícios dos anos 1970. Processo de crise e integração da
economia mundial que se dá em meio a tais antagonismos que
agravam todas as contradições do sistema.
A
alternativa encontrada pelo imperialismo para sua crise foi
de, por um lado, produzir uma gigantesca máquina de
especulação nos “mercados financeiros” para remunerar os
capitais sobreacumulados e, ao lado disto e num mesmo
movimento, reconfigurar a estrutura produtiva da economia
mundial.
A
especulação nos “mercados financeiros”
Podemos
constatar o fantástico crescimento dos “mercados
financeiros” a partir da crise de 1973/1975 nos gráficos
abaixo [2] que nos mostram a evolução do Índice Dow Jones
Industrial Average (DJIA), da Bolsa de Nova Iorque [3]. Esse
índice é o mais utilizado por “analistas” e se refere ao
desempenho das 30 principais ações negociadas nesta bolsa.
Essa amostra é atualizada periodicamente, sendo uma das
expressões do processo que vimos apontando: uma permanente e
contínua sobreacumulação na esfera financeira de capitais
que não encontram aplicação no setor produtivo à taxa média
de lucro.
O
Gráfico 1 mostra a evolução do Índice Dow Jones desde 1896
até 17 de agosto de 2006. Podemos observar (com o uso de uma
lupa), talvez por volta de 1924 ou 1925, o início do
processo especulativo que leva à formidável crise na
economia mundial de 1929. A subida lenta e a queda brusca em
1929. Da mesma forma com a crise de 1973/1975-76. Os níveis
de 1973 só vão ser retomados em 1976, portanto após três
anos de crise, de queda da bolsa. E também o início da
escalada especulativa atual, no começo dos anos 1980, com
seus trancos e barrancos, como em 1987 e 2001-2003. Estes
movimentos são incomparavelmente maiores que aqueles de
1929, pelo ritmo e volume de capitais jogados na
especulação.
Gráfico
1 - Evolução do índice Dow Jones Industrial Average desde
1896 até agosto de 2006
O
Gráfico 2, com dados de 1900 a 1954, mostra, até 1922, um
período cheio de altos e baixos, com as ações chegando a 100
pontos, depois caindo a 50 (metade do valor anterior!),
depois indo a 100 novamente. A partir de 1924 e até 1929,
uma escalada especulativa até então sem precedentes. De
setembro de 1929 a julho de 1932, as ações caem para um
oitavo do valor anterior, de quase 400 para 50. Novamente
aos trancos e barrancos (escalada até 1936, queda em
1937-38, subida entre 1942 e 46, queda e estagnação até
1949, e subida posterior) vemos que o índice atingido às
vésperas da crise de 1929 só será alcançado ao final de
1954, um quarto de século depois.
Gráfico
2 - Detalhe da evolução do índice DJIA entre 1900 e 1954
Em
seguida, o Gráfico 3 com dados de 1990 até 2006, mostra a
atual escalada da especulação. Percebe-se que o gráfico é
bastante diferente do anterior. Os movimentos de “correções”
das quedas são muito menores e mais curtos. Não obstante, há
uma queda em 1998 [4], um período de muita volatilidade e
sem tendência definida de 1999 a 2001, crise até o final de
2002 e início de 2003 e depois crescimento.
É
importante notar que o pico atingido pela bolsa em 2000 só
foi retomado em maio de 2006, um intervalo de seis anos,
após um período de quedas que vai até meados de 2003 e uma
escalada oscilante de três anos.
Gráfico
3 - Detalhe da evolução do índice DJIA entre 1990 e agosto
de 2006
É a
possibilidade de fuga e valorização do capital na
especulação, sem que as crises nesta esfera financeira
afetem de modo determinante o setor produtivo, como em 1929,
o que vem permitindo que não se torne explosiva a permanente
e contínua sobreacumulação de capitais que não encontram
aplicação no setor produtivo à taxa média de lucro.
É o
processo de construção e sustentação de uma máquina de
valorização financeira - e vamos aqui avançar uma tese: a
construção de Aparelhos Internacionais a serviço da
reprodução do sistema imperialista, tradução na
superestrutura do processo de formação de uma economia
capitalista mundial cada vez mais integrada, o imperialismo
-, que vem permitindo o processo que analisamos de
valorização de capitais no “mercado financeiro”. Aparelhos
para executar aquilo que os economistas burgueses chamam de
“governança” na economia mundial.
Sem
estes Aparelhos, a valorização do capital no “mercado
financeiro” não poderia se dar sem uma crise que se
generalizasse para a economia como um todo e para toda a
economia mundial. O que quer dizer, crise que inviabilizasse
a “máquina financeira” enquanto espaço de valorização e que
estendesse seus efeitos ao setor produtivo, a indústria.
Processo de construção e sustentação de uma máquina de
valorização financeira, de Aparelhos Internacionais a
serviço da reprodução do sistema, da mesma forma que o
período da passagem da livre concorrência ao monopólio levou
a que trustes, cartéis se fundissem [5] com o Estado,
permitindo, assim, que agora o Estado, diretamente a serviço
desses mesmos monopólios, passe a construir instrumentos,
Aparelhos Internacionais, capazes de, momentaneamente,
intervir na economia para contrarestar a queda da taxa de
lucro, sem, contudo conseguir se sobrepor às contradições do
sistema.
Processo que toma corpo a partir de Bretton-Woods, em julho
de 1944, onde foram constituídos Aparelhos Internacionais a
serviço do sistema da economia capitalista mundial, como o
Banco Internacional para a Reconstrução e Desenvolvimento
(International Bank for Reconstruction and Development -
BIRD), conhecido também como Banco Mundial, e o Fundo
Monetário Internacional (FMI), ao que se somam a ONU com seu
pequeno clube de membros permanentes, o Conselho de
Segurança, a OEA, a OCDE, a OMC, a OTAN e uma série de
acordos militares e, por fim, o G-7 que, com seus encontros
semestrais, chegou a ambicionar regular e harmonizar a
economia capitalista global.
A
reestruturação do setor produtivo
Aprofundamento da crise
Somada
à especulação financeira, para contrarestar sua crise,
inicia-se na economia mundial um processo de reestruturação
que se desdobra em três movimentos: primeiro, com as
políticas neoliberais tenta-se rebaixar o preço da força de
trabalho tanto nos países imperialistas quanto nos
dominados; depois, inicia-se a redistribuição das estruturas
produtivas dos países dominantes, mantendo os setores
intensivos em tecnologia nos países capitalistas
imperialistas, transferindo os intensivos em força de
trabalho para países dominados onde seu preço compensasse os
custos de transferência; e, por fim, depois da experiência
no México, inicia-se o processo de transferência da
indústria dos países imperialistas para a China, processo
liderado pelos EUA. Movimento que Delfim Netto define em
artigo à revista Carta Capital [6] como, “... uma revolução
no processo produtivo mundial...” e que, mesmo tendo
proporcionado, segundo ele, “um maior crescimento da
economia mundial nos últimos anos...”, representa somente
uma solução momentânea que, ao mesmo tempo em que permite um
“maior crescimento” da economia capitalista, no mesmo e
único movimento faz crescer os fatores que levarão ao
aprofundamento da crise: o aumento da composição orgânica do
capital, a queda da taxa de lucro, a sobreacumulação e a
superprodução.
O
aumento da composição orgânica do capital, a queda da taxa
de lucro, a sobreacumulação e a superprodução levam a um
agravamento das contradições do sistema imperialista: da
contradição fundamental - burguesia/proletariado;
contradição imperialismo/classes dominantes aliadas e povos
dos países dominados; contradição interimperialista e
finalmente contradição capitalismo e socialismo. Assim,
vejamos:
1.
Agravamento da contradição fundamental
A
solução encontrada agrava a contradição fundamental do
sistema capitalista, a contradição capital/trabalho, a
contradição burguesia/proletariado na China, nos países
dominados, nos países imperialistas. Agudização da luta de
classes por todo o mundo, contradição que tem como uma de
suas expressões a tendência à queda da taxa média de lucros.
Agrava
a contradição burguesia/proletariado nos países
imperialistas porque esse movimento para a China representa
o encerramento de indústrias, a “deslocalização”, o aumento
do desemprego, o recurso à força de trabalho barata dos
imigrantes para realizar as tarefas indispensáveis em
setores da produção ou circulação que, por diversas razões,
não podem ser transferidos dos países imperialistas.
E nos
países dominados porque se constitui em alavanca no processo
de rebaixamento do valor da força de trabalho, não só pela
concorrência de mercadorias fabricadas na China, mas também
pelos efeitos da reorganização na estrutura econômica,
social e política dos demais países dominados, alterando a
posição das classes e frações de classes no bloco de classes
no poder com a ascensão das frações ligadas objetivamente
aos interesses do imperialismo.
2.
Agravamento da contradição entre imperialismo/classes
dominantes aliadas e povos dos países dominados
Como
desdobramento do agravamento da contradição fundamental do
sistema, processo que vai levar à necessidade de
reconfigurar a economia mundial, se agrava a contradição
entre a burguesia dos países imperialistas e seus aliados -
as classes dominantes dos países dominados - frente aos
povos destes países.
Expressão de suas tendências intrínsecas - o agravamento da
luta de classes, queda da taxa média de lucro, etc. – o
imperialismo busca resolver sua crise aumentando a
exploração da classe operária e dos povos dos países
dominados, nas condições internas que lhes são próprias, daí
as diferenças no processo em relação ao Brasil e à China.
Exemplos desta segunda tendência - tendência para o aumento
da exploração da classe operária e dos povos dos países
dominados -, na América Latina, são as tentativas de aplicar
a política neoliberal, como nos casos que levaram à crise na
Argentina e no Brasil as políticas de Collor, FHC e hoje
Lula.
E
também a exploração da força de trabalho barata, quase
escrava, na China, Índia, Ásia, etc., movimento que hoje se
coloca no centro do processo de reconfiguração da economia
mundial, daí porque vamos nos estender em analisá-lo,
buscando a comprovação empírica para nossa análise.
- A
exploração da força de trabalho chinesa -
É
possível comprovar, a partir dos dados coletados por
Maurício Mesquita Moreira em seu estudo, “O desafio chinês e
a indústria na América Latina” [7], que a queda da
participação da indústria no PIB não é uma questão
especificamente brasileira, mas representa um processo de
ajuste, por diferentes razões, dos países dominados e mesmo
em alguns países dominantes, às determinações resultantes da
reorganização da economia mundial.
Moreira, depois de ressaltar para a América Latina:
“...
que após mais de uma década de liberalização comercial,
aproximadamente 20% do PIB da região ainda é produzido no
setor manufatureiro e que países como Brasil e México são
exportadores expressivos de produtos manufaturados.” (p.24).
Vai
constatar que, apesar do peso ainda significativo da
indústria, vivemos um processo que os economistas vão chamar
de “desindustrialização” e que denominamos de regressão:
“É
verdade que a participação da indústria no PIB tem declinado
rapidamente, que produtos intensivos em recursos naturais ou
trabalho ainda dominam as pautas de exportação e que a
América Latina tem tido enormes dificuldades de competir com
o Leste Asiático.” (p.24).
A
partir do trabalho de Moreira [8] verificamos que, mesmo
para economias como as da Argentina, Brasil e México, as que
alcançaram maior índice de industrialização na América
Latina, depois de um longo processo em que se dá um aumento
da participação da indústria no PIB seguido de período de
estabilização, se inicia em todas elas, em datas diferentes,
um processo de queda contínua desta participação, expressão
do processo de transferência das filiais das indústrias dos
países dominantes para a Ásia.
No caso
dos países dominados é a indústria dos países imperialistas
que se desloca em busca de força de trabalho barata e maior
taxa de lucro, deixando nestes só o desemprego e os vazios.
No
Gráfico 4, retirado do mesmo trabalho, podemos constatar a
diferença do valor da força de trabalho - na economia
mundial expresso em dólares - entre países da América
Latina, entre eles o Brasil, e a China. Podemos também
observar, o crescimento do valor da foça de trabalho no
México, crescimento contínuo de 1996 a 2002; e a queda
contínua deste valor no Brasil e, por fim, o crescimento
também contínuo do preço da força de trabalho também na
China.
Gráfico
4 - Salário médio anual na indústria, em US$1000, correntes
[adaptado da referência 7]
Nota-se
ainda, pelo mesmo gráfico, que o salário médio anual na
indústria, que em 1996 correspondia no Brasil a mais de sete
vezes este valor na China, se reduz em 2002 a praticamente
três vezes tal valor, levando-se ainda em conta que no mesmo
período o valor do salário médio anual na indústria na China
quase dobrou.
Moreira, respondendo à seguinte questão “Por que a China é
um desafio para a indústria na América Latina?”, afirma:
“Com
uma população de 1,3 bilhão de pessoas e uma força de
trabalho de 640 milhões, vivendo e trabalhando em um
ambiente com recursos naturais limitados, a China tem
imensas vantagens comparativas em produtos intensivos em
mão-de-obra. Tal abundância de trabalho se traduz em
salários que se situam em níveis bem abaixo daqueles
praticados na América Latina. O gráfico 4 [2 em seu
trabalho], por exemplo, compara os salários das indústrias
chinesa, brasileira, mexicana e colombiana. Como se pode
ver, mesmo em um ano favorável como 2002, momento de
expressiva desvalorização cambial, os salários no Brasil
eram o triplo dos praticados na China. No caso do México, os
salários chegavam a ser cinco vezes mais altos.” (p. 27)
O que
nos permite levar em conta as afirmações de uma fonte
improvável como a revista Veja [9], afirmações que podemos
cotejar com outras fontes [10]:
“Nos
Estados Unidos, uma hora de trabalho de um operário custa 37
dólares. Na indústria automobilística chinesa sai por menos
de 2 dólares (no Brasil é o triplo disso)... há também
vários prédios de dormitórios, onde moram 70% dos 15.000
funcionários. É o que há de comum nas fábricas chinesas:
como quase todos os operários são migrantes, eles moram
nesses quartos de graça [sic].” (Veja pp.150).
E mais:
“Em
outras fábricas pelo país [China], mesmo nas que produzem
para multinacionais de ponta, encontram-se operários que
recebem 50 dólares por mês e enfrentam um batente de 15
horas diárias” (Veja p.151).
O mesmo
se dá quando se trata da produtividade.
Gráfico
5 - Produtividade do trabalho na manufatura - China, Brasil,
Colômbia e México (valor adicionado por trabalhador:
1992=100)
[reproduzido da referência 7]
Como se
pode ver, no Gráfico 5, num período de dez anos, enquanto a
produtividade do Brasil vai do índice 100 a 130, da mesma
forma como para o México, na China a produtividade mais do
que triplicou.
Buscando explicação para o processo, Moreira afirma que:
“É
verdade que isso pode ser simplesmente o reflexo dos
elevados níveis de investimentos chineses (em média 40% do
PIB na última década), os quais elevam a relação
capital-trabalho.” (p. 29).
É
esclarecedor ver, pelo Gráfico 6, o crescimento da
participação da China nas exportações mundiais de
manufaturados. Ao mesmo tempo em que cai a participação da
América Latina e do Caribe.
Puxada
pelo México, a América Latina tenta iniciar uma recuperação
de suas exportações na década de 1990 e, como podemos
observar, seu desempenho fica muito aquém do chinês, que já
em 2002 atinge uma participação do mercado mundial duas
vezes maior que a mexicana.
Outro
ponto importante a observar é a distância crescente entre a
participação da Ásia e da América Latina nas exportações.
Gráfico
6 - Participação nas exportações mundiais de manufaturados.
Países e regiões selecionados, 1981-2002, em porcentagem
[adaptado da referência 7]
Daí que
a China venha tomando, cada vez mais, espaços no mercado
mundial antes ocupados pelos países da América Latina.
E é
importante notar que a cada ano as perdas da América Latina
no mercado mundial aumentam em proporção ao crescimento das
exportações chinesas. Como podemos ver, 0,6% em 2000, 0,8%
em 2001 para 1,5% em 2002, quase dobrando a participação da
China, para em 2003 atingir 2,3% (Gráfico 7).
Gráfico
7 - Perdas anuais da América Latina para a China, em
percentual das exportações do ano corrente, entre 1990 e
2003
[reproduzido da referência 7]
3.
Agravamento da contradição interimperialista
Como
desdobramento do agravamento de sua contradição fundamental,
se acirra a contradição interimperialista.
Agravamento da contradição entre os países dominantes como
resultado do acirramento da luta de classes, da resistência
da classe operária na luta de classes, da queda da taxa de
lucro, dos limites encontrados para aumentar a exploração
dos povos dos países dominados.
De
outro modo, o que estamos dizendo é que diante :
a) da
tendência ao aguçamento da contradição burguesia/classe
operária, contradição fundamental do modo de produção
capitalista, da luta de classes;
b) da
tendência à queda da taxa média de lucro;
c) da
dificuldade cada vez maior de recorrer ao “comércio
exterior”, ao mercado externo, ao aumento da exploração dos
países dominado;
para
aumentar ou manter a taxa média de lucro, os países
imperialistas só tem à sua frente uma nova partilha do mundo
“... ‘segundo a força’;...” de cada país imperialista “...
qualquer outro processo de partilha é impossível no sistema
da produção mercantil e no capitalismo.”, como já mostrava
Lênin.
O
acirramento da contradição interimperialista se expressa na
radicalização da concorrência/contradição entre a burguesia
dos diversos países imperialistas, entre frações ou setores
dos diversos ramos da produção e circulação de mercadorias,
trustes e cartéis. Concorrência para manter mercados e áreas
de influência, controle sobre fontes de energia e
matérias-primas. Concorrência na disputa de vida e morte por
manter a taxa de lucro, garantindo novas esferas de
valorização do capital. Repetindo Lênin:
“Os
capitalistas não partilham o mundo levados por uma
particular perversidade, mas porque o grau de concentração a
que se chegou os obriga a seguir esse caminho para obterem
lucros;...”. ([5] p. 631).
4.
Agravamento da contradição capitalismo/socialismo
Como
manifestação da contradição fundamental
burguesia/proletariado se coloca e agrava a contradição
capitalismo/socialismo expressa nas tentativas de destruir
todas as experiências que hoje buscam construir o
socialismo.
Na
tradição marxista, já é clássica esta enumeração das
contradições do imperialismo, da economia capitalista
mundial. Contradições que têm de ser compreendidas em sua
especificidade e unidade, suas interações recíprocas como
desdobramentos da luta de classes, da contradição
fundamental do capitalismo: a contradição
burguesia/proletariado, que ainda mais se desdobra em
concorrência/contradição entre as diversas frações da
burguesia.
Conjuntura: o agravamento da contradição do imperialismo com
os povos
dos
países dominados e, cada vez mais, da contradição
interimperialista
Buscando fazer a análise concreta da conjuntura concreta da
crise do sistema imperialista, poderíamos dizer que a longa
crise estrutural que o imperialismo vem vivendo é profunda e
generalizada e se torna mais aguda ao golpe de cada crise
conjuntural, crise num país, num setor da economia, numa
Bolsa, levando o sistema, em busca de contrarestar sua
crise, a aprofundá-la.
Parodiando o “Manifesto”, podemos dizer que além do fantasma
do comunismo, da luta de classes, outro fantasma percorre
hoje a economia capitalista mundial, o fantasma da
sobreacumulação de capital e da superprodução de
mercadorias, levando a crise aos “mercados financeiros” e ao
setor produtivo, conseqüência e causa da queda da taxa média
de lucro.
Porque,
como dissemos, o desenvolvimento do imperialismo desde a
crise de meados dos anos 1970 vem resultando em:
1. Uma
permanente sobreacumulação de capitais – expressa na subida
das Bolsas, como no exemplo da Bolsa de Nova Iorque mostrado
acima, e em sucessivas crises controladas até agora pela
intervenção dos Aparelhos Internacionais do imperialismo:
FMI, Banco Mundial e pelos governos e bancos centrais dos
países imperialistas, (G-7).
2. Na
diminuição das possibilidades de aplicação desses capitais
no setor produtivo, mantendo-se a taxa média de lucro,
levando a que esses capitais se refugiem no “mercado
financeiro” ou busquem aplicação em qualquer rincão do mundo
onde seja possível diminuir o custo da força de trabalho,
como no momento atual “os formidáveis investimentos
físicos...” realizados na China, como os classifica Delfim
em seu artigo à Carta Capital.
E
também porque há uma superprodução de mercadorias, expressão
da sobreacumulação de capitais e limite à sua aplicação no
setor produtivo. E, pressionados pela superprodução de
mercadorias, pelos limites de seu próprio mercado e do
mercado externo, os monopólios – que vêm agravar a
concorrência – tendem a fazer cair seus preços, disputando
entre si por todas as formas, inclusive a guerra, uma parte
maior dos mercados e, constrangendo os países dominados, em
sua área de influência, a reorganizar sua estrutura
produtiva (Brasil – China) para atender às novas
circunstâncias da economia mundial e a consumir seus
produtos.
Ou,
dizendo de outra forma, pressionado pela sobreacumulação de
capital e pela dificuldade generalizada de sustentar a taxa
média de lucro no setor produtivo e ganhos e juros
correspondentes nos mercados financeiros, o imperialismo vem
constrangendo os países dominados a criar mecanismos de
remuneração de seus capitais, tanto no setor produtivo (no
Brasil, reorganização da indústria e expansão do
agronegócio; na China, transferência de indústrias -
"deslocalização"), como financeiro, “mercados financeiros”.
E/ou, ainda, vem desencadeando guerras por uma nova
repartição das esferas de valorização do capital.
Assim,
e de forma ainda mais intensa - como resultado do
progressivo agravamento estrutural de sua crise - o
imperialismo procura encontrar no aumento da exploração dos
países dominados, na disputa, na guerra para repartir
mercados, a solução para sua crise.
Acirramento do conjunto das contradições
É
fundamental para os povos dos países dominados compreender
esta conjuntura da crise do imperialismo. Levar em conta que
se acirra o conjunto de contradições que compõem a economia
capitalista mundial, se agrava a luta de classes, a
resistência dos povos dos países dominados às tentativas de
ampliar a exploração, a contradição entre o imperialismo e
os povos dos países dominados, a dominação, no mesmo
processo em que se agrava a contradição interimperialista, a
disputa por mercados e áreas de influência. Hoje a guerra
imperialista é uma realidade. Guerra para dominar mercados,
ganhar zonas de valorização de seus capitais, queimar
capitais e militarizar a economia.
É da
maior importância que se compreenda o processo único no qual
a crise do imperialismo se desdobra - com a queda da taxa de
lucro resultando no acirramento de todas as suas
contradições. Centralmente de sua contradição fundamental, a
contradição burguesia/classe operária, levando a contradição
entre o imperialismo e os países dominados à posição de
contradição principal, ao mesmo tempo em que gradualmente
agrava a contradição interimperialista.
É
evidente que a crise do imperialismo agudiza todas as suas
contradições, centralmente sua contradição fundamental, como
também é evidente que esta contradição se agrava tanto nos
países imperialistas como nos países dominados.
Contudo, objetivamente, dentro das condições da luta de
classes na conjuntura concreta de hoje, o imperialismo
enfrenta uma reação menor ao tentar resolver sua crise
elevando a exploração da classe operária e do conjunto dos
povos dos países dominados (caso da China e a tentativa do
México, e no Brasil hoje o exemplo da Volks em São Bernardo
do Campo) [11], do que elevando a exploração de sua própria
classe operária, apesar de que também se agrava a luta de
classes nos países imperialistas (manifestações na França,
Alemanha, Itália e EUA).
Da
mesma forma enfrenta menos obstáculos ao tentar resolver a
crise sobre os países dominados, ao invés de levar à guerra
a disputa entre os países imperialistas (a contradição
interimperialista) por esferas de valorização do capital.
O que
não quer dizer que a lógica férrea do capital na realidade
concreta da economia mundial não determine aos países
imperialistas, no mesmo processo, que aprofundem, até onde
lhes for possível, a exploração do povo de seu país e de sua
classe operária, explorem até onde lhes for possível a
classe operária e os povos dos países dominados, e de que
não disputem por todas as formas, inclusive pela guerra, as
áreas de valorização do capital, os mercados ocupados por
outros países imperialistas e tentem destruir as
experiências de construção do socialismo.
Resistência do povos
Se a
crise do imperialismo impõe a este o aumento da exploração,
a luta de classes impõe limites a esta. A ampliação da
exploração da classe operária nos países imperialistas tem
de se enfrentar com níveis mais elevados de organização e
consciência e um patamar também elevado de conquistas,
resultantes da luta de classes, expressa em condições de
trabalho, salário e vida.
Nos
países dominados a classe operária, os trabalhadores e o
povo vêm de uma história de dominação e luta sob o
colonialismo que transfere sua herança de sujeição ao
imperialismo. Sujeição partilhada pela classe dominante
destes países em sua subserviência atávica aos interesses
dos dominadores, quaisquer que sejam.
Em toda
parte é a reorganização da classe operária em seu partido,
dirigido por sua teoria o fator determinante.
Assim,
para contrarestar sua crise e, consequentemente, o
agravamento de sua contradição fundamental diante da
defensiva da classe operária, o imperialismo agudiza nesta
conjuntura a exploração dos países dominados, a contradição
que opõe os países imperialistas aos países dominados e cada
vez mais a contradição interimperialista.
A
acumulação, a concentração e centralização de capitais
tende, inevitavelmente, ao monopólio em cada setor da
economia mundial. E cada monopólio, truste, cartel, estado
imperialista fará tudo, absolutamente tudo, da mera fraude à
guerra, para vencer a disputa em cada setor.
Ora, o
que dizemos é que quanto mais se agrava a crise estrutural
do imperialismo mais este acirra a luta de classes por todo
o mundo e de todas as formas. Temos de estar atentos ao
realizar a análise concreta da conjuntura para perceber que
a resistência dos povos árabes contribui mais para a luta
antiimperialista que toda a esquerda inglesa reunida no
Partido Trabalhista Britânico de Tony Blair.
O que
vemos hoje é que na unidade das contradições que estruturam
o imperialismo, a contradição com os povos dos países
dominados vai cedendo lugar à contradição interimperialista.
Cedendo lugar, fundindo-se, uma levando à outra, processo no
qual estas contradições vão se substituindo enquanto
contradição principal, contradição que vai determinar a
forma e a velocidade do agravamento das outras contradições.
Reordenamento das relações de exploração nos países
dominados
Assim,
depois de concentrar forças diante do inimigo comum - o
socialismo e seus aliados - para destruí-lo, o imperialismo
faz convergir suas forças em reordenar as relações de
exploração dos países dominados, com os Estados Unidos
utilizando sua supremacia militar e sua hegemonia sobre o
sistema capitalista a fim de garantir as novas condições de
exploração: intervenção na Iugoslávia, Afeganistão, Iraque,
e a crescente intervenção nos países da América Latina,
México, Colômbia, Peru, Venezuela, etc., ao mesmo tempo em
que usa sua posição no processo de reestruturação da
economia mundial (as novas condições de exploração) para
reforçar sua hegemonia econômica e militar no sistema.
Com a
continuação da crise, a contradição com a classe operária
nos países capitalistas dominantes vai se agravando, levando
à constituição de verdadeiros “terceiros mundos” internos,
como também se agrava a contradição interimperialista na
disputa por zonas de influência para valorização do capital,
mercados e matérias-primas. Contudo, a contradição
interimperialista se mantém ainda em segundo plano, enquanto
for possível resolver a crise sobre os países dominados.
Primeiro, porque os Estados Unidos detêm larga hegemonia
econômica e militar entre os países imperialistas, usando
esta hegemonia e seus braços (Israel, por exemplo), para
policiar o sistema e contornar suas crises através dos
Aparelhos Internacionais do imperialismo, determinando a
posição dos demais países imperialistas na economia mundial.
Segundo, porque ainda existem mercados a conquistar (a
China, Índia, etc.) e se faz necessário quebrar a
resistência dos povos de todo o mundo à “nova ordem
mundial”.
Terceiro, porque a crise econômica ainda não chegou ao seu
auge, o que implicará a radicalização da disputa feroz que
já vem se travando pelo controle das “áreas de influência”,
dos mercados, das matérias-primas, principalmente de
petróleo e gás, e da força de trabalho, tendendo, como das
outras vezes, a gerar uma nova guerra mundial.
Contudo, já se percebe no horizonte a tendência de que a
crise da economia mundial pode vir a atingir novamente a
economia dos EUA e, como dissemos, vários dos "intelectuais"
integrados ao sistema apontam esta tendência.
Na
revista Carta Capital, de agosto deste ano, nº. 408, [12]
Francisco Petrus nos diz, em sua coluna, “O Bolso e a
Cabeça”, que:
“Está
generalizada a percepção de que a economia norte-americana
entra em um processo de redução de atividades. Se esse
processo resultará em recessão somente o tempo dirá.” (p.
41)
Páginas
atrás, Márcia Pinheiro começa afirmando, no artigo “A
locomotiva pode parar”, que “... a locomotiva global dá
sinais de cansaço.”, para em seguida se referir às análises
de Paul Krugman, Stephen Roach, economista chefe do Banco
Morgan Stanley e Jared Bernstein, do Economic Policy
Institute (EPI), entre outros:
“Dos
11,4 trilhões de dólares do Produto Interno Bruto (PIB)
americano, nada menos que 8,1 trilhões de dólares são
gerados pelo consumo das famílias. Essa megaconcentração da
economia dos Estados Unidos na mão dos consumidores é capaz
de gerar movimentos ciclotímicos, da euforia à depressão. A
má notícia é que, após quatro anos consecutivos de
crescimento expressivo, a locomotiva global dá sinais de
cansaço.” (p. 36).
“De
acordo com o professor da Universidade de Princeton Paul
Krugman, o crescimento dos EUA desde a crise das empresas
pontocom – com o crash da bolsa de tecnologia Nasdaq, em
2002 – deu-se basicamente pela supervalorização dos
imóveis.” (p. 36).
“Segundo o conceituado economista chefe do Banco Morgan
Stanley, Stephen Roach, a palavra-chave que explica a
ante-sala da recessão é o mercado de trabalho. O crescimento
da oferta de empregos nos últimos quatro meses está 35%
abaixo da média registrada desde 2004.” (p. 36).
“Um
artigo de Roach, publicado no jornal britânico Financial
Times em 14 de agosto, sustenta que o consumo já caiu 2,5%
de abril a junho.” (p. 36).
“O
analista Jared Bernstein, do Economic Policy Institute
(EPI), um centro de pesquisas norte-americano, também chama
atenção para a redução constante da criação de novas vagas
de trabalho.” (p. 36).
Na
revista Forbes Brasil, de agosto deste ano, [13] Tharcisio
Bierrenbach de Souza Santos, analisando “Cenários
Econômicos” no artigo “Perspectivas preocupantes para e a
economia mundial”, torcendo pelo sucesso do capitalismo,
avalia:
“....
Tudo indica que a economia mundial, sob influência da
economia americana, caminha para um suave processo de
desaquecimento, sendo de se prever que o nível máximo das
taxas de juros, se não tiver sido alcançado, será atingido
no futuro imediato. Já existem indicações sobre o
arrefecimento do crescimento da economia americana, às quais
agora se juntam indicações sobre comportamento semelhante
por parte da economia européia.” (p. 30).
Como
observa o insuspeito defensor do capitalismo Delfim Netto
[6], “A China e outras economias asiáticas, aproveitando o
espírito da globalização, encontraram uma espécie de
equilíbrio simbiótico com os Estados Unidos”. Da mesma forma
que os repórteres da revista Veja: EUA e China estabeleceram
“uma relação simbiótica” que resultou que “... a economia
mundial se tornou dependente da corrente de riquezas que une
China e EUA em fulgurante estrela binária”.
E
prosseguem os articulistas da revista, o “modelo de
crescimento” da China não pode se reproduzir por muito tempo
sem que leve a uma cada vez mais acentuada sobreacumulação
de capital e a inundar a economia mundial de milhões de
gadgets made in China.
“As
debilidades inerentes à economia chinesa, o sistema
financeiro de alta vulnerabilidade e um modelo de
crescimento que, dizem os especialistas, não pode durar para
sempre assustam tanto quanto sua voracidade. O raciocínio é
o seguinte: se a China desmoronar a economia mundial vai
junto ...” (Veja, p.108-109).
Interdependência entre países imperialistas e China
A
interdependência entre EUA e China é muito grande, mas não é
só. O conjunto de países imperialistas vêm estabelecendo
relações de interdependência cada vez maiores com a China,
começando por Alemanha e Japão. Como diz a revista Veja, os
chineses tem “seis em cada cem dólares de títulos da dívida
americana que estão no mercado”. Do 1 trilhão de dólares de
reservas em moeda estrangeira nas mãos da China “60% estão
aplicados em dólares e títulos do governo dos Estados
Unidos”.
A
transferência da indústria dos países imperialistas para as
zonas de exportação chinesas destrói empregos não só nos
países imperialistas como em países dominados onde se
encontrava parte da indústria dos países dominantes.
“Das
6000 fábricas pelo mundo que fornecem produtos à Wal-Mart,
89% estão na China. Isso mata empregos. (...) Das 500
maiores companhias americanas, 450 instalaram-se na China.
(...) Um total de 72 bilhões de dólares foi investido lá no
ano passado pelas companhias estrangeiras – a maior
enxurrada de dólares do planeta”. (Veja, p.158,159).
Movimento contraditório do processo de rearranjo da economia
mundial
O
processo de rearranjo da economia mundial que descrevemos,
como ensina Marx, ao mesmo tempo/movimento em que permite,
momentaneamente, a retomada da acumulação capitalista
levanta novas e maiores barreiras a ela. Tudo vai acirrar as
contradições do sistema levando a que todos os países
imperialistas acirrem sua luta por ampliar seu lugar na
economia mundial.
Assim,
da mesma forma que a agressão imperialista ao Afeganistão,
agressão e partilha da Iugoslávia, guerra contra o Iraque,
agressão à Palestina, ataque ao Líbano [14] e a
“deslocalização” da indústria imperialista para China, fazem
parte dos movimentos do imperialismo buscando retomar,
aumentar a taxa de lucro na valorização do capital, com a
ampliação de seu “espaço vital” na economia mundial.
De
fato, o que os EUA têm como objetivo nesta guerra (no
conjunto destes movimentos) para contornar a crise latente
na economia mundial – partindo da convicção que Israel faz
guerra como preposto dos EUA – pode ser resumido em um
objetivo amplo, que se desdobra, um nos outros:
Primeiro, militarizar a economia: é só ver que Clinton
aumentou em 70% os gastos militares dos EUA e que Bush vem
radicalizando esta política.
Segundo, como desdobramento da militarização, principalmente
controlar o petróleo e o gás natural na Ásia Central e
Península Arábica – Médio Oriente – Arábia Saudita, Iraque,
Irã e Kuwait etc., e não só petróleo, porém todas as fontes
de energia e matérias-primas em todo o mundo;
Terceiro, e ainda, também impor e ampliar suas bases
militares no centro da Ásia entre Rússia, China e Coréia e
no Médio Oriente, não só impedindo uma coligação de
interesses entre Rússia, China e Coréia como embargando os
interesses da União Européia no Médio Oriente;
Quarto,
assim, assumir uma posição de força para enfrentar a
resistência e o ascenso da luta de classes.[15]
Como
dissemos, o imperialismo norte-americano, para manter sua
hegemonia na economia global, tem sido empurrado a se
sustentar cada vez mais pelo uso da força, isolando-se.
Enfrentar tantos inimigos de uma vez pode parecer à primeira
leitura um sinal de força, porém, o que fazem na realidade é
mostrar, com mais esta guerra (neste momento o ataque e a
resistência do povo do Líbano e a ameaça ao Irã), sua
debilidade.
A
militarização da economia e seus desdobramentos
Os EUA
reagem para manter sua hegemonia por meio da guerra,
enfrentando a tendência à queda da taxa média de lucro na
economia mundial, a concorrência cada vez mais acirrada da
União Européia, do Japão e do bloco de países que se
organizam em seu entorno, a ameaça do enigma que representa
o crescimento econômico da China, uma crescente oposição dos
países dominados na OMC e da classe operária e dos povos do
mundo todo.
Por
outro lado, como mostramos acima, os Aparelhos
Internacionais do imperialismo (FMI, etc.) e os “analistas
financeiros”, temem a cada queda da bolsa que Wall Street e
todo sistema mundial financeiro se vejam arrastados a uma
crise catastrófica, muitos deles não excluindo que se
reproduza um crash como o de 1929.
A
tentativa de solucionar o problema, transferindo o peso da
crise para os países dominados, cria um problema ainda
maior: como poderão os trustes e os cartéis que montaram na
Ásia (na China) uma indústria com o melhor da tecnologia e
força de trabalho quase escrava vender mais aos povos que
eles empobreceram?
Crescimento da pobreza e da miséria em todo o mundo é também
um problema econômico insolúvel. Por um lado, existem
capitais e capacidades de produção sem precedentes que
crescem sem cessar, por outro, são cada vez maiores os
números da pobreza e da miséria por todo o mundo e,
portanto, menores os números dos que podem consumir.
A
reação da economia norte-americana à crise de 2001, através
do estímulo ao consumo privado como motor da economia, se
mostra cada vez mais incapaz de relançar um período de
crescimento econômico. Assim, a militarização é também uma
tentativa de reanimar a economia. A este processo complexo,
com vários desdobramentos, que significa muito mais do que
recorrer a uma “corrida armamentista”, denominamos por
militarização da economia.
A
militarização liderada pelo “complexo industrial-militar”
tem gerado um sem número de efeitos na economia como:
-
forçar, com a produção de equipamento militar que vai desde
os sofisticados mísseis a alimentação e botas, uniformes
etc., o relançamento do crescimento econômico;
-
assegurar o controle dos EUA sobre mercados e
matérias-primas, petróleo e gás, em detrimento e na
concorrência com os demais países e blocos imperialistas;
-
provocar a queima forçada de capital.
Brasil
Todo
este processo contraditório acima descrito implicou, em
nosso país, uma reconfiguração de nossa formação
econômico-social, aprofundando a dominação/exploração
imperialista, que denominamos como uma regressão a uma
situação colonial de novo tipo, que analisamos em artigo
publicado neste sítio.
Como já
dissemos, desde o governo Collor até Lula, este
lugar-tenente operário da classe dos capitalistas, nossas
classes dominantes e seus gerentes embarcaram com deleite e,
note-se bem, proveito, neste processo. Tanto Lula como
Alckmin, que agora querem Geraldo, defendem a mesma política
de submissão ao imperialismo e usarão todo o peso dos
Aparelhos de Estado, repressivos e/ou ideológicos, para
levá-la a cabo.
A
diferença para a classe dominante, para seus setores
hegemônicos, é a de que Lula tem se mostrado mais útil para
continuar este processo. O nosso “operário” presidente pode
recorrer à imagem de “pai dos pobres”, pai dos
trabalhadores, que construíram para ele, para, como bom
pelego, amortecer a luta de classes.
Portanto, nesta conjuntura, devemo-nos perguntar nos
inspirando em Lênin: interessa à classe operária participar
das eleições burguesas?
É Lênin
quem nos diz em 1920 que,
“...
poderíamos assegurar sem vacilar que o parlamentarismo na
Alemanha ainda não caducou politicamente, que a participação
nas eleições parlamentares e na luta através da tribuna
parlamentar são obrigatórias para o partido do proletariado
revolucionário, precisamente para educar os setores
atrasados de sua classe, precisamente para despertar e
instruir a massa aldeã...” [16]
Uma
questão fundamental que marca a diferença da conjuntura em
que travaram sua luta os comunistas na Alemanha e na Rússia
na época de Lênin e da conjuntura brasileira atual é que
aqui não há partido revolucionário do proletariado, para,
através de uma participação dirigida por uma linha
política/ideológica justa, despertar, educar, instruir e
organizar a classe operária, as classes dominadas, em meio
às eleições ou aos parlamentos burgueses. Portanto, mais uma
vez nos inspirando em Lênin - "... porque foi levado em
conta, acertadamente, a situação objetiva,..." [16] -
buscando fazer a análise concreta da situação concreta, é
justo não participar das eleições a não ser denunciando-as.
Portanto, em nossa opinião, para a classe operária e para as
classes dominadas só resta - denunciando a farsa das
eleições, a política e ideologia imperialistas, o
“metalúrgico presidente” e sua “oposição” -, combater, e, no
fogo da luta de classes, construir o seu partido. Como diz
Lênin: “o partido do proletariado revolucionário”.
________________________________________
Notas:
1.
Imperialismo (Reproduzido do artigo E agora? de Marco
Antonio V. dos Santos).
Lênin
começa seu trabalho sobre o imperialismo dizendo no prefácio
às edições francesa e alemã, que:
“O
principal objetivo do livro, hoje como ontem, consiste em
mostrar, com ajuda dos dados gerais, irrefutáveis da
estatística burguesa, e das declarações dos cientistas
burgueses de todos os países, um quadro de conjunto do que
era a economia mundial capitalista, nas suas relações
internacionais, dos princípios do século XX,...”. (p. 21)
Portanto, Lênin inicia o “Imperialismo” dizendo que este se
constituiu numa “economia mundial capitalista”, e mais
adiante, ainda no mesmo prefácio:
“O
capitalismo transformou-se num sistema universal de
subjugação colonial e de estrangulamento financeiro da
imensa maioria da população do planeta por um punhado de
países ‘adiantados’.”
A nosso
ver, é de fundamental importância esclarecer o conceito
marxista-leninista de imperialismo, a fim de estabelecer a
linha justa por onde passa a luta de classes na conjuntura
concreta do Brasil contra as classes dominantes nacionais e
as classes dominantes dos países imperialistas que dominam e
exploram nosso povo, contra o imperialismo que determina,
dentro dos limites das contradições internas, como se exerce
a dominação e a exploração no Brasil.
O
imperialismo é a fase do capitalismo resultante das
tendências intrínsecas do capital, que tem como seu elemento
essencial a constituição do modo de produção capitalista num
sistema de dominação e exploração mundial, efeito da
propensão – inerente ao processo de reprodução ampliada do
capital impulsionado pela lei do valor – à concentração /
centralização industrial e financeira, no mundo e em cada
formação social, que tem como conseqüência relações
econômicas, políticas e ideológicas cujos efeitos são
designados pelos conceitos de colonização e imperialismo.
De
outra forma, podemos dizer que o imperialismo, fase do
capitalismo resultante das tendências integrantes ao capital
impulsionadas pela lei do valor e inerentes ao processo de
reprodução ampliada do modo de produção capitalista, que
resultam da propensão do capital à concentração /
centralização industrial e financeira no mundo e em cada
formação social, produz a tendência à constituição do modo
de produção capitalista à escala mundial, num sistema
mundial, corporificado em um pólo dominante e um pólo
dominado e em relações econômicas, políticas e ideológicas
designadas pelos conceitos de colonização e imperialismo.
O
desenvolvimento desigual das forças produtivas entre países
imperialistas e países dominados decorre e é resultado /
condição da reprodução ampliada do modo de produção
capitalista em escala mundial, assegura sua reprodução
ampliada em escala mundial e garante a reprodução da
exploração / dominação (do sistema) imperialista.
Ou
seja, o sistema capitalista mundial não é somente um
“mercado” onde a dominação e a exploração se realizam
através dos preços, mas é um sistema de exploração e
dominação composto de instâncias econômicas, políticas e
ideológicas, e essas próprias instâncias decompõem-se numa
série de níveis conformando uma teia de relações que
produzem e reproduzem a exploração e a dominação.
A
necessidade de reproduzir a dominação mundial do modo de
produção capitalista para produzir e reproduzir o modo de
produção capitalista em escala mundial resulta:
1 – Em
uma nova divisão internacional do trabalho e no
desenvolvimento polarizado das forças produtivas mundiais.
2 – Na
divisão e desenvolvimento polarizado, desenvolvimento
desigual das forças produtivas entre países imperialistas e
países dominados, que resulta / produz e reproduz as
desigualdades econômicas e sociais entre os países
dominantes e os países dominados. Desigualdade que decorre,
é resultado e condição da reprodução ampliada,
necessariamente contraditória, do modo de produção
capitalista em escala mundial; assegura sua reprodução
ampliada em escala mundial e garante a reprodução da
dominação e exploração do (sistema) imperialista.
3 – Na
necessidade do pólo dominante de reproduzir a exploração e
dominação para reproduzir a posição dos países imperialistas
no sistema e, conseqüentemente, reproduzir a condição dos
países dominados de concorrer para a reprodução ampliada do
capital no pólo dominante.
4 –
Conseqüentemente, na tendência a um desenvolvimento
capitalista relativamente “rápido” nos “países
desenvolvidos” / dominantes, e um desenvolvimento econômico
“diferente” - porque em conformidade e a serviço do processo
de reprodução do capital na economia mundial - nos países
“atrasados” / dominados.
Desenvolvimento “diferente” das forças produtivas nos países
dominados porque determinado e em conformidade (servindo,
ajustado) à reprodução ampliada do capital, na / ao
desenvolvimento da / economia mundial. Desenvolvimento este
determinado pelo desenvolvimento contraditório do pólo
dominante, países dominantes / países imperialistas.
Desenvolvimento da economia mundial que favoreceu, nos
países dominados, a manutenção e desenvolvimento de relações
de produção e também de relações políticas e ideológicas que
determinaram a tendência a um desenvolvimento das forças
produtivas de forma diferente e ajustada à dos países
imperialistas.
De
outra forma, poderíamos dizer que as formas de produção em
um país dominado são sobredeterminadas pela dominação das
relações econômicas, políticas e ideológicas imperialistas.
5 – Que
a dominação não se dá somente na esfera econômica, é,
portanto, também política e ideológica. Daí porque o termo
colonização: esta última forma de dominação faz com que a
ideologia dominante em cada formação social dominada seja
sobredeterminada pela dominação das relações econômicas,
políticas e ideológicas imperialistas que ligam a classe
dominante dos países dominados aos interesses das classes
dominantes dos países dominantes. Sobredeterminada por uma
construção ideológica que é dominante em escala
mundial.[topo]
2. O
gráfico foi elaborado por nós.[topo]
3. A
fonte dos dados é a página de internet:
www.dowjones.com.[topo]
4.
Quebra do fundo de hedge dos dois prêmios Nobel, o Long Term
Capital Management, LTCM.[topo]
5.
LÊNIN, V.I. O imperialismo, fase superior do capitalismo.
Obras Escolhidas. Tomo 1. São Paulo, Editora Alfa Omega,
1979, p. 575.[topo]
6.
Revista CARTA CAPITAL. Política, Economia e Cultura. Ano XII
nº. 389, 19 de abril/2006.[topo]
7.
MOREIRA, Maurício Mesquita. O desafio chinês e a indústria
na América Latina. Revista Novos Estudos, CEBRAP, nº. 72,
julho 2005, p. 21-38.
[topo]
8.
Ibid. nota 7.[topo]
9.
Revista VEJA. Reportagem Especial: CHINA. Edição 1968 – ano
39 – nº. 31, 9 de agosto de 2006.[topo]
10.
VIEIRA, Flávio Vilela. China: crescimento econômico de longo
prazo.
Rev. Econ. Polit. vol.26 no.3 São Paulo July/Sept. 2006
[topo]
11.
INVERTIA. Metalúrgicos desafiam Volks e não aceitam acordo
sobre demissões. Terça, 22 de Agosto de 2006, 15h57.[topo]
12.
Revista CARTA CAPITAL, Política, Economia e Cultura. Ano
XIII nº. 408, 30 de agosto de 2006.[topo]
13.
Revista FORBES BRASIL. Ano 6 nº. 138, 23 de Agosto.[topo]
14.
Para realizar esta análise temos que ter em conta que Israel
não é nada mais nada menos que a ponta de lança do
imperialismo norte-americano no Oriente Médio, que Israel
não se arriscaria a uma agressão de forma tão bárbara a um
país desarmado como o Líbano se não tivesse recebido as
ordens e a garantia de que os EUA os apoiaria diante de
reação que não pudesse controlar.[topo]
15.
Para uma visão mais ampla do assunto indicamos a tradução da
apresentação do Dr. Zoltán Grossman, Faculdade de Geografia,
The Evergreen State College, Olympia, Washington, disponível
em nosso sítio. Observamos que o arquivo é extenso,
encontrando-se em formato power point (8,4Mb).
- No
sitio “resistir.info” “Uma rede militar global” de Juan
Carlos Galindo, com uma boa avaliação sob a expansão da
“rede militar” dos EUA até julho de 2002.
- Para
uma análise do imperialismo do ponto de vista do marxismo
podemos consultar Rui Namorado Rosa ainda no sitio
“resistir.info”, o primeiro “Cem anos para aprender
História” de 24 de Abril de 2005, e “Imperialismo: seus
limites e alternativas” de 20 de Setembro de 2004.[topo]
16.
LÊNIN, V.I. A doença infantil do “esquerdismo” no comunismo.
Rio de Janeiro: Editorial Vitória, 1960 (pela ordem das
citações, p. 62 e 29).[topo]
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