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Muito antes da eleição de Lula à presidência já vínhamos
defendendo no CeCAC, baseados na análise dos interesses de
classe que se expressavam no PT, que Lula e o PT no governo
continuariam aplicando a mesma política do imperialismo
iniciada por Collor e continuada por FHC em seus dois
mandatos.
Esta posição, buscando analisar a conjuntura do ponto de
vista do materialismo dialético e a partir daí apontar os
interesses de classe que se expressam no PT, nos rendeu
críticas na chamada esquerda. Mesmo entre aqueles que depois,
aproximando-se da nossa crítica ao governo Lula, não tenham
reconhecido o acerto no fundamental de nossas posições;
mesmo que esta análise, esta avaliação sobre o PT e o
governo Lula venha se ampliando, tanto entre os que assumem
o marxismo-leninismo como entre setores socialistas e
progressistas dos mais diversos matizes, mesmo entre setores
da igreja.
Quando dizemos que o PT representa os interesses das classes
dominantes no geral, e de alguns de seus setores em
particular - hoje os setores mais estreitamente ligados ao
imperialismo - , vale ressaltar que não queremos dizer que
todos os seus militantes representem esses interesses.
Centenas de militantes do PT combateram, sincera e
valorosamente, dentro do partido as posições
social-democratas para transformá-lo e construir o
socialismo.
Discutindo a
conjuntura da crise do imperialismo em nosso último artigo
publicado neste sítio, afirmamos, tendo como referência as
posições de Lênin em “A doença infantil do ‘esquerdismo’ no
comunismo”:
“Como já
dissemos, desde o governo Collor até Lula, este
lugar-tenente operário da classe dos capitalistas, nossas
classes dominantes e seus gerentes embarcaram com deleite e,
note-se bem, proveito, neste processo. Tanto Lula como
Alckmin, que agora querem Geraldo, defendem a mesma política
de submissão ao imperialismo e usarão todo o peso dos
Aparelhos de Estado, repressivos e/ou ideológicos, para
levá-la a cabo.
A
diferença para a classe dominante, para seus setores
hegemônicos, é a de que Lula tem se mostrado mais útil para
continuar este processo. O nosso “operário” presidente pode
recorrer à imagem de “pai dos pobres”, pai dos trabalhadores,
que construíram para ele, para, como bom pelego, amortecer a
luta de classes.
Portanto, nesta conjuntura, devemo-nos perguntar nos
inspirando em Lênin: interessa à classe operária participar
das eleições burguesas?
É
Lênin quem nos diz em 1920 que,
‘... poderíamos assegurar sem vacilar que o parlamentarismo
na Alemanha ainda não caducou politicamente, que a
participação nas eleições parlamentares e na luta através da
tribuna parlamentar são obrigatórias para o partido do
proletariado revolucionário, precisamente para educar os
setores atrasados de sua classe, precisamente para despertar
e instruir a massa aldeã...’ [1]
Uma questão fundamental que marca a diferença da conjuntura
em que travaram sua luta os comunistas na Alemanha e na
Rússia na época de Lênin e da conjuntura brasileira atual é
que aqui não há partido revolucionário do proletariado,
para, através de uma participação dirigida por uma linha
política/ideológica justa, despertar, educar, instruir e
organizar a classe operária, as classes dominadas, em meio
às eleições ou aos parlamentos burgueses. Portanto, mais uma
vez nos inspirando em Lênin - "... porque foi levado em
conta, acertadamente, a situação objetiva,..." [1] -
buscando fazer a análise concreta da situação concreta, é
justo não participar das eleições a não ser denunciando-as.
Portanto, em
nossa opinião, para a classe operária e para as classes
dominadas só resta - denunciando a farsa das eleições, a
política e ideologia imperialistas, o “metalúrgico
presidente” e sua “oposição” -, combater, e, no fogo da luta
de classes, construir o seu partido. Como
diz Lênin: “o partido do proletariado revolucionário”.
Mesmo assim, apesar de que esses quatro anos de governo
comprovaram o acerto de nossa análise, ainda há quem tente
argüir com as “vantagens comparativas” de Lula, coisas como,
por exemplo: sua origem operária ou seu “rol de amigos”,
etc., etc., etc.
Quanto a sua
origem operária há de se perguntar, sem precisar ir muito
longe, Lech Walesa também não era operário? Quanto ao diz-me
com quem andas..., esse também não é um bom critério para
julgar o Governo Lula que, ao que parece, mais atrapalhou do
que ajudou o governo de Hugo Chavez, o governo de Fidel
Castro e o povo de Cuba.
Aliás, não é à toa que o PT nunca tenha definido o
“socialismo” que defendia. Defender todas as formas de
socialismo e nenhuma forma, defender uma coisa informe é uma
maneira de não defender coisa nenhuma. Na prática, significa
diluir e negar o socialismo defendido por Marx, Engels,
Lênin e demais marxistas.
Um dado interessante da conjuntura é o revelador artigo de
Mino Carta, de 11 de outubro, com a autoridade de um
jornalista que esteve com Lula desde a primeira hora no
sindicato, em São Bernardo, e o defendeu em suas eleições e
agora na reeleição. Trata-se do artigo/editorial “Por que
Lula, segundo capítulo”, para a “Carta Capital”, prestigiada
revista brasileira, da qual Mino Carta é diretor de redação.
Mino Carta começa dizendo que o governo, na questão da
política econômica - o que para nós é a questão central -,
“... ajoelhou-se aos pés do Deus Mercado, submisso aos
dogmas neoliberais, e descurou da produção.” Portanto, que
Lula, o PT e seu governo, como fizeram sempre os governos
anteriores desde Tomé de Sousa, aplicaram a política
determinada pela metrópole, hoje “os dogmas neoliberais”.
Avaliando o conjunto do governo diz que: “O governo Lula
ficou bastante aquém das esperanças dos eleitores de 2002 e
de Carta Capital, e das necessidades do país. Pouco se fez
para combater o desequilibro social, questão primeira na
pauta dos problemas, embora o povo tenha percebido leves
progressos,...”.
Uma significativa “queixa” sua, ao que nos parece, é a de
que, apesar de ter se ajoelhado “aos pés do Deus Mercado”,
de ser submisso “aos dogmas neoliberais”, de ter aplicado,
portanto, a política do imperialismo, seguindo Collor e
Fernando Henrique, pouco fazendo, como eles, “... para
combater o desequilibro social, questão primeira na pauta
dos problemas,...” o governo Lula não tenha conseguido
seduzir o conjunto “... dos ricos nativos.” Nas palavras do
jornalista: “Nem por isso Lula seduziu porção conspícua dos
ricos nativos”.
Não é que Lula tenha deixado de seduzir a classe dominante,
os banqueiros internacionais e George W. Bush. O “problema”
é que uma “porção conspícua dos ricos nativos” não se deixou
seduzir por ele; talvez aristocratas, quem sabe, não aceitem
um operário para capataz de seus negócios, como avaliam
alguns lulistas.
Porém, o que mais parece revoltar Mino Carta, o “ponto
dolorido”, é o da corrupção que grassa no governo Lula e no
PT “... depois de ter desfraldado seu comportamento ético
por mais de duas décadas, ...” como afirma o articulista.
Para concluir com uma frase lapidar: “O PT pareceu tão
hipócrita quanto os demais partidos, além de incompetente na
gestão do poder e de suas próprias conveniências, navegou
entre a trapalhada e o golpe sujo”.
Então, vejamos:
-
se “O PT pareceu tão hipócrita quanto os demais partidos”,
-
se, além do mais, ainda é “incompetente na gestão do poder e
de suas próprias conveniências” em razão do que seu governo
“navegou entre a trapalhada e o golpe sujo”,
-
se naquilo que Mino Carta considera a “... questão primeira
na pauta dos problemas,...”, “o desequilíbrio social”,
“pouco se fez”,
-
se na política econômica o governo Lula “ajoelhou-se aos pés
do Deus Mercado” e foi submisso “... aos dogmas neoliberais,...”,
por que, então, votar novamente em Lula?
Mino Carta responde dizendo ainda que sua “conclusão não é
animadora”. Depois de se queixar de que o povo “...tape os
olhos diante da evidência” da “gravidade da situação” do
Brasil, todos a nos “... satisfazer com o gol de seu time.”,
afirma que:
“Os donos do poder sempre apostaram na resignação do povo,
que chamavam de cordialidade. Mas no abismo a separar ricos
de pobres, onde já medram a violência urbana, a guerra do
tráfico, o PCC, a fúria que mata mais de 50 mil brasileiros
a cada ano, a raiva armazenada centenas de anos a fio tem
todas as condições de explodir, algum dia, de uma hora para
outra”.
Portanto, se o governo Lula é uma continuação dos governos
Collor e FHC, um pouco mais incompetente, fruto de sua
inexperiência em golpe sujo e trapalhadas, por que votar em
Lula?
Mino Carta
justifica o voto em Lula: “Apesar de todas as decepções, o
presidente é ainda a melhor opção. Somente ele, na situação,
vale como mediador”. É “o mais qualificado
mediador”. Leia-se, o mais capaz de segurar a luta de
classes, ou como diz Lênin, o “lugar-tenente operário da
classe dos capitalistas”. Mino Carta afirma:
“... neste Brasil a risco, por razões que todos conhecemos
embora tantos finjam ignorá-las, neste Brasil de
desigualdades insuportáveis, Lula é, nas circunstâncias, o
mais qualificado mediador entre a minoria abastada, ou quase,
e a maioria estacionada entre a pobreza e a miséria absoluta.”
Nisto
concordamos com Mino Carta mesmo que por outras razões. As
classes dominantes brasileiras e o imperialismo necessitam
de Lula na presidência para continuar aplicando a política
econômica e social que lhes interessa, intensificando a
exploração e a dominação das classes dominadas, tentando
anestesiá-las, fazendo tudo para naturalizar a miséria e a
exploração, para abafar a resistência e a luta popular. E, à
disposição, não há melhor candidato para cumprir este papel,
de bombeiro da luta de classes, do que Lula, o “presidente
operário”, o “nordestino pai dos pobres”.
Gostaríamos de ressaltar, como afirmamos no Boletim do CeCAC
de setembro de 2003, que:
“As classes dominantes por toda a história da luta de
classes, desde o início do século passado quando não foi
mais possível impedir a organização da classe operária,
trabalham com a tática de sua divisão. Divisão na luta
política e sindical, estimulando a criação para isto dos 'partidos'
social-democratas, tática através da qual a burguesia tenta
anular a construção e atuação das organizações proletárias,
pregando uma ideologia simples, subproduto da ideologia
burguesa destinada às classes dominadas, uma ideologia
pequeno-burguesa reformista apresentada no caso do Brasil
sob tintura radical.
No Brasil foi o PT, concretamente, o instrumento da
burguesia para alcançar este objetivo. Dividir a classe
operária, afastá-la de sua teoria e de seu partido, não só
levando o principal do movimento sindical para uma política
de colaboração de classes, como obstaculizando a construção
do partido que expresse os reais interesses do proletariado.
Toda esta conjuntura cobra dos setores progressistas e
democráticos do país redobrar sua atenção na análise da
situação concreta.”
Mas é bom lembrar que há casos na História, em que as
classes dominantes, os “donos do poder”, com toda aparente
calmaria e “domesticação das massas”, foram “surpreendidas”
pela revolução, pela explosão da “raiva armazenada centenas
de anos a fio”.
Assim,
nesta conjuntura, com o objetivo de contribuir para elevar o
nível de consciência e organização da classe operária e das
classes dominadas, dentro de uma perspectiva revolucionária
de longo prazo, apontamos:
“... é justo não participar das eleições a não ser
denunciando-as”, ou seja, “para a classe operária e para as
classes dominadas só resta - denunciando a farsa das
eleições, a política e ideologia imperialistas, o
‘metalúrgico presidente’ e sua ‘oposição’ - , resistir,
combater, e, no fogo da luta de classes, construir o seu
partido. Como diz Lênin: ‘o partido do proletariado
revolucionário’.”
Nota:
1. LÊNIN, V.I. A
doença infantil do “esquerdismo” no comunismo. Rio de
Janeiro: Editorial Vitória, 1960 [topo]
* * *
O Correio da
Cidadania em sua edição 522 traz editorial e alguns artigos
e entrevistas que, partindo de outras posições teóricas e
políticas, contribuem para o debate sobre o 2º turno das
eleições.
Este texto encontra-se em http://www.cecac.org.br/ |